terça-feira, 10 de novembro de 2009

melancolia roubada


domingo, 4 de outubro de 2009

fun

Dear Mom...
to look life in the face,
always... to look life in the face...
and to know it... for what it is...
at last to know it...
to love it... for what it is...
and then...
to put it away.
Mom...
always the years between us
always the years...
always the love...
always the hours...


By V.W.

domingo, 20 de setembro de 2009

colorido

a rua branca
a saia branca
o cheiro
a boca.

lágrima branca
passos brancos
coxas brancas
o seio.


os pés brancos
as unhas brancas
joelhos
a água.

úmida, libidinosa
fulgurosa, rósea.


boca encarnada
mordida doída
carne acesa
as curvas.

lábios molhados
colo convulsionado
gota doce
vermelho claro.


sono azul fraquinho
veias claras
sonhos revoltos
manhã aroma puro.
Não, minha querida, eu não domino esses ponteiros de vento.

sábado, 22 de agosto de 2009

Mensagem a um desconhecido

Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo o que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Cecília Meireles

sábado, 18 de julho de 2009

"Gosto de Diadorim no teatro."
Riobaldo, G.R in G.S:V.

Amêndoas doces tingem a hora perigosa da tarde.
O resplandecer do seu olhar acena para um vôo fadado ao impacto, sem próximo ar,
sem ano que vem.
O ano não vem.
Seus vestidos não falam de dias ou de amores,
rumorejam crimes do corpo que ambicionam descansar em minhas mãos.
Mas ela é irrevogável.
E seu caminhar é um firme passo de baile numa noite de erro.
A smile like yours...
obviamente me levaria ao desespero,
são tantas vidas sem domínio,
tantos impulsos gravitando...
As cores do erótico tânatos em seu sexo
pulsam por uma significação em mim...
sei que não alcanço,
não há sonhos,
não toco este céu.
Aromas invadem o coma anoitecido para revelar a perfeição
do transe em vida.
...cada dia, cada folha...
corpos aquecidos numa galeria envidraçada,
brotando cacau, flor de coral...
brilhando fidúcia romântica em tempos modernos.
Elle est belle,
e fala gotas de mel ouro antes de adormecer,
e me arrasta por lugares bolorentos para retornar sempre
pelos sibilinos caminhos do encontro.
O pousar da parelha alada inspira compaixão,
mas fala de êxtase em voz alta.
SUGESTÕES PARA ATRAVESSAR AGOSTO


Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco.É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante:ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir,dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus,
fica a suspeita de sinistros angúrios , premonições.Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem:qualquer problema , real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos- ou precauções-úteis a todos. O mais difícil:evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão
completamente quanto possível(santo ZAP!):FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se avida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o
seu dentista. emoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros,
juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques-tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire , a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas- coisas assim são eficientíssimas, pouco me
importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente nãose deter de mais no tema. Mudar de assunto,digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.


Caio Fernando Abreu

domingo, 24 de maio de 2009

Amor bate na aorta


Cantiga do amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres, tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for, é o amor.


Meu bem, não chores, hoje tem filme de Carlito!


O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico, o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes, meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.


Amor é bicho instruído.


Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo sangue que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas que não ouso compreender...


(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Diariamente

Ao passo que os pés tropeçam na curva do dia
o movimento pendular na parede da sala
já não fala de horas dúbias e idílicas...
desconversam silêncios enterrados.
O que o grão não finda são os sorrisos feericos,
de um tempo em que poucos passos suprimiam o beijo...
a crueldade da morte em vida...outros cheiros tantos...
e tudo pulsa na parede da sala... o que não morre.
O dia corre depressa
as luzes, ares, o café, os livros...
a vida, a vida.